terça-feira, 14 de outubro de 2008

O PRIMEIRO DIA


Foi com resignação, mas sobretudo com uma enorme tristeza, que recebeu a notícia. Estava assim por ela, que a sabia igualmente triste e desiludida. “A princípio é simples”, mas agora… Tinha sido o grande responsável pela sua vinda e, no momento da partida, era como se perdesse algo que lhe era muito querido.

Não deixariam de se ver, não trairiam a sua amizade, haveria sempre a garantia duma palavra do lado de lá do telefone. Mas aquele sentimento de união sob uma mesma bandeira, sob um mesmo emblema, aquele “brindar aos amores com vinho da casa”, aquela força interior que advinha do facto de partilharem gostos e vontades de chama ao peito, isso não mais se repetiria.

Alguém poderia censurá-la, acusá-la do que quer que fosse? Ninguém. Espalhara aos quatro ventos a sua enorme alegria e juventude sem esperar nada em troca. “E enfim, duma escolha, fez-se um desafio”. Convicta da justeza do seu acto, ali estava ela, afirmando que nem tinha razões para sair. Só que lhe faltavam motivos para ficar.

Resignado e triste, ele era "um rapazinho a ver se compreende”. Revoltado só de pensar que não estava certo. Desesperado por não conseguir “beber a coragem até dum copo vazio”. Impotente em contrariar esta tendência, cada vez mais feroz, do individual que abafa o colectivo. Desiludido com esta vida de merda, com este “corre-corre” onde não há tempo para ter tempo.

Então sentou-se e escreveu. E escrevendo sentiu-se melhor. Passou os olhos pelo que tinha escrito e viu que, não dizendo tudo, disse muito do que queria dizer. Já passara por isto algumas vezes e sabia que “doutra maré-cheia virá a maré-vaza”.
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Depois levantou-se e foi tomar chá.

JOAQUIM MARGARIDO

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2 comentários:

joaquim adelino disse...

Vai um café?
É bonito e de grande elegância a selagem de um tempo aglotinador que passou e que se permitiram partilhar conosco. É por isto que esta modalidade é tão linda quando é servida por gente tão honrada e respeitadora. Eu, apesar de ausente associo-me à grandeza do simbolismo do acto e da atitude partilhada entre os presentes convidados.
Saudações desportivas

Ana disse...

Que bom que é “ser-se” jovem!...

Afinal um chá sabe sempre bem, principalmente, porque também aquece a alma!
Assim haja “tempo” para o beber…e é tão difícil, por vezes, resistir!

 
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