quarta-feira, 22 de outubro de 2008

TERRA


Pousou a chávena de chá cuidadosamente sobre a mesa, endireitou-se no sofá e proferiu, num tom vago, indefinido, esta verdade, que de tão verdadeira até dói: “As coisas vulgares que há na vida não deixam saudade.” O seu olhar atravessava cada um de nós sem nos ver, mergulhado que estava num ponto preciso, que sabíamos fantástico, surreal. Suspensos daquela frase, aguardámos em silêncio um desenvolvimento que tardava. Mas quando chegou, foi como que uma torrente de emoção e delírio se derramasse sobre nós, copiosa e incontinente.

Falou de si, falou de nós. Ora com a enorme força da sua portentosa voz, ora num sussurro quase inaudível. Mais do que ouvir, podíamos sentir a sua respiração. Então, como sempre fazia, apresentou-se, abriu-nos o seu coração e cantou. E assim cantando, tudo e todos encantou. “Há dias que marcam a alma e a vida da gente”, dizia. “Vende sonho e marezia”, acrescentava. E era como se todos fossemos tomados de verdadeiro arrebatamento e bebêssemos nas suas palavras o sentido duma vida que, não poucas vezes, se nos apresenta sem sentido.

Saltitando entre Pessoa, Camões ou Florbela Espanca, seguia “do vale à montanha, da montanha ao monte”. Sentia-se, vivia-se, sonhava-se, enquanto confessava: “Eu canto um país sem fim”. Descia às tascas da Mouraria, mergulhava na sua infância, dava um salto a Cabo Verde. E, de lugar em lugar, ia subindo, até se afirmar no nosso mais íntimo como alguém que é parte integrante do todo que somos nós, do todo que é Portugal, que é a sua língua, que são as suas gentes.

“Ó gente da minha terra!” Arrepiante, a sua voz era agora uma faca que penetrava nos corações e nos turvava a vista de lágrimas. Passeava-se ali à nossa frente, homens e mulheres beijando-lhe as mãos, derramando “emoções que dão vida à saudade que trago”. Quando fez menção de se ir embora, ninguém lho permitiu. A conversa prolongou-se com trivialidades e muito humor. Falou de ter ido “à Feira de Castro” ou de como se travou de razões com o “senhor vinho”. Ainda teve tempo para nos ensinar a cantar em “inglês”. Mas depois, inevitavelmente, tudo acabou.

Levantou-se e vimos como era alta. Muito alta e esguia. Ao sair voltou-se para trás, adivinhou-nos a interrogação e respondeu, ainda e sempre com um sorriso: “Nem às paredes confesso!” À medida que se afastava, um turbilhão de ideias tomava conta dos espíritos e uma certeza impunha-se às demais: “Há gente que fica na história da história da gente”. Obrigado Mariza!

JOAQUIM MARGARIDO

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3 comentários:

aida disse...

Suponho, que super pavilhão de Ovar se tornou pequeno, para albergar os amantes da Mariza!
Tive o previlégio de assistir ao concerto da Mariza em Tavira e sei de que falas. Realmente é arrebatador e nessa ocasião metade da plateia era Internacional e sem perceber patavina, cantavam e choravam com ela!
Não é só a voz, é também o sentimento de quem canta com paixão.
Mesmo aqueles que dizem que não gostam de fado, saem do concerto sem palavras.

Fernando Andrade. disse...

Comum é-lhes o “Mar”, a imensidão
De quanto a língua pátria tem p’ra dar.
Ele usa a pena e tinta de emoção,
Que ela, com a voz que tem, faz realçar.
Dois nomes que vos trago em cada mão
P’ra tentardes aqui adivinhar.
Coisa fácil, que o texto de há momentos
Revela claramente os dois talentos.

Ana disse...

“Canção com Lágrimas” e “Meu Alentejo”, são duas canções que me emocionam particularmente…
Depois há a Mariza que, com a sua voz maravilhosa, canta e, encanta, as gentes, de tantas terras a que “pertence”…

 
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